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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Dá-me um lugar

Publicada por bulgari




Dá-me um lugar onde possa reclinar a cabeça

um colo onde possa adormecer

e te saiba por perto


dá-me mãos inteiras de chuva

os lírios que a manhã me trouxe aos olhos

uma única razão para o dilúvio


e eu dar-te-ei um verso

do tamanho de uma casa

José Rui Teixeira



quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

The Pogues & Kirsty McColl Fairytale Of New York

Publicada por bulgari


Merry Christmas!!!

sábado, 18 de dezembro de 2010
Publicada por bulgari



É um...
DESLIZAR o tempo sobre o tempo...
DESCALÇAR os pés sobre um chão mole...
PROCURAR um fim qualquer...
DORMIR sobre os diamantes...
SONHAR com as palavras sem sentido...
ENCONTRAR um olhar distante com um ouvido atento...
DIZER o que se quer, para que fique dito para sempre...
SABER que ontem já passou e amanhã ainda está para vir...
REPOUSAR sobre a vida das flores e o voo nupcial...
DESCOBRIR que há dois tipos de pessoas, os narcisos e os gladíolos...
ACREDITAR nos buracos de vermes...
ANDAR para que a calma restabeleça a ordem dos sentidos...
TRAZER tudo o que até agora se guardou...
DEVOLVER as cores às noites sem fim...
CORRER com uma mão livre e um livro debaixo do braço...
APRENDER com as crianças que o tempo é subjectivo...
VER a história de cada um de nós esvair-se como se fosse uma ampulheta...
PROCURAR um fim qualquer...

E é também...

NÃO DESLIZAR o tempo sobre o tempo...
NÃO DESCALÇAR os pés sobre um chão mole...
NÃO PROCURAR um fim qualquer...
NÃO DORMIR sobre os diamantes...
NÃO SONHAR com as palavras sem sentido...
NÃO ENCONTRAR um olhar distante com um ouvido atento...
NÃO DIZER o que se quer, para que não fique dito para sempre...
NÃO SABER que ontem já passou e que amanhã ainda está para vir...
NÃO REPOUSAR sobre a vida das flores e o voo nupcial...
NÃO DESCOBRIR que há dois tipos de pessoas, os narcisos e os gladíolos...
NÃO ACREDITAR nos buracos de vermes...
NÃO ANDAR para que a calma restabeleça a ordem dos sentidos...
NÃO TRAZER tudo o que até agora se guardou...
NÃO CORRER com uma mão livre e um livro debaixo do braço...
NÃO APRENDER com as crianças que o tempo é subjectivo...
NÃO VER a história de cada um de nós esvair-se como se fosse uma ampulheta...
NÃO PROCURAR um fim qualquer...

CORTAR a meta...
CORRER o risco...
CHEIRAR a coca...
RASGAR a pele...
QUERER amar...
CRIAR o espaço...
VOLTAR a vê-lo...
PEDIR de vida...
ESTENDER a mão...
FECHAR os olhos...
TROCAR as voltas...
DIZER que não...
ABRIR a porta...
FICAR sozinho...
SOLTAR o filho...
IR ao acaso...
MATAR o tempo...
LER-lhe nos olhos...
DEIXAR passar...
TER para dizer...
LEVAR consigo...
SABER guardar...
GOSTAR de rir...
PODER fugir...
ESQUECER o fim...
CONTAR a história...
PERDER o rumo...
OUVIR falar...
ACRESCENTAR...

Olga Roriz

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Broken Social Scene - Lover's Spit.avi

Publicada por bulgari

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

E assim acontece...

Publicada por bulgari





Há quem diga que todas as noites são de sonhos.

Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão.

Mas no fundo isso não tem muita importância.

O que interessa mesmo não são as noites em si são os sonhos.

Sonhos que o homem sonha sempre.

Em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.



William Shakespeare


domingo, 5 de dezembro de 2010

Macy Gray Don't Forget Me

Publicada por bulgari

sábado, 4 de dezembro de 2010

Será ouvido

Publicada por bulgari



Do lugar em que temos razão
jamais crescerão
flores na primavera
.

O lugar em que temos razão
está pisoteado e duro

como um pátio.

Mas dúvidas e amores
escavam o mundo
como uma toupeira, como a lavradura.
E um sussurro será ouvido no lugar
onde houve uma casa
que foi destruída
.

Yehuda Amichai

Publicada por bulgari

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Publicada por bulgari



Andava em busca de uma alma semelhante à minha, e não podia encontrá-la. Procurava por todos os recantos da terra: era inútil a minha perserverança. E, no entanto, não podia continuar só. Precisava de alguém que aprovasse o meu carácter; precisava de alguém que tivesse as mesmas ideias que eu. Era de tarde; a noite começava a estender o negrume do seu véu sobre a natureza. Uma bela mulher, que eu mal distinguia, estendia igualmente em meu redor a sua influência encantatória, e olhava-me compassiva; porém não ousava falar-me. Eu disse: Aproxima-te de mim, para que distinga com nitidez os traços do teu rosto, porque a luz das estrelas não basta para os iluminar a esta distância. Disse-lhe logo que a vi: Vejo que a bondade e a justiça fizeram morada no teu coração: não poderíamos viver juntos. Agora admiras a minha beleza, que já transtornou a muitas; mas, mais tarde ou mais cedo, havias de arrepender-te de me teres consagrado o teu amor; porque não conheces a minha alma. Não que te seja alguma vez infiel mas convence-te disto e nunca mais o esqueças: os lobos e os cordeiros não se olham com doces olhos.

Isidore Ducasse

domingo, 28 de novembro de 2010

Há dias....

Publicada por bulgari



há dias em que acordamos e percebemos tudo
o recorte das cidades no horizonte
a distância que há nos caminhos que rasgam os corações
como se fossem searas de trigo
o nome de certas coisas que só sentimos num abraço

depois percorremos a mão pelo granito
como se fossemos o tempo
e como se a vida não fosse mais do que uma claridade
que invade pela frincha da porta o quarto escuro

é então que descobrimos
num desses rostos com que cruzamos o olhar
que a vida podia ser outra
e que seríamos felizes num outro sorriso
se lhe entregássemos inteiros os nossos lábios


há dias assim
em que acordamos e percebemos tudo
como se tudo nos estivesse imensamente próximo
como se cada dia nascesse e morresse num abraço
como se a vida coubesse num poema

José Rui Teixeira

sábado, 27 de novembro de 2010

Kings Of Leon - Radioactive

Publicada por bulgari

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Renova-te

Publicada por bulgari



Renova-te.


Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.


Cecília Meireles

domingo, 14 de novembro de 2010

Antony and The Johnsons - The Horror Has Gone

Publicada por bulgari

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Se um dia...

Publicada por bulgari



Se um dia regressares, a terra estremecerá na memória de tua ausência.
E a água formará um vasto oceano no outro lado do teu olhar.
Regressarás, talvez, quando o ar se tornar rubro em redor do meu sono — e o lume das horas, a pouco e pouco, saciar a boca que clama pelo teu nome.
Encontrar-nos-emos nas imagens deste jardim de afectos e ódios.
Porque os jardins são labirínticas arquitecturas mentais, onde podemos resguardar os corpos de qualquer voragem do tempo.
Por isso, enquanto não regressas, construo jardins de areia e cinza, jardins de água e fogo, jardins de minerais e de cassiopeias — mas todos abandono à invasão do tempo e da melancolia.
Mas se um dia regressares, passeia-te por dentro do meu corpo. Descobrirás o segredo deste jardim interior — cuja obscuridade e penumbras guardaram intacto o nocturno coração.


Al Berto

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Antony & The Johnsons Feat Bjork - Fletta

Publicada por bulgari

domingo, 24 de outubro de 2010

Se deste outono

Publicada por bulgari



Se deste outono uma folha,
apenas uma, se desprendesse
da sua cabeleira ruiva,
sonolenta, e sobre ela a mão
com o azul do ar escrevesse
um nome, somente um nome,
seria o mais aéreo
de quantos tem a terra,
a terra quente e tão avara
de alegria.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Apelo à poesia

Publicada por bulgari




Por que vieste? — Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(Nem triste, nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta... )
E tu vieste,Como se fosses necessária!
Poesia! nunca mais venhas assim:

Pé ante pé, covardemente oculta
Nas idéias mais simples,
Nos mais ingênuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança...
— Não sejas como o Amor!

É verdade que vens, como se fosses
Uma parte de mim que vive longe,
Presa ao meu coração
Por um elo invisível;
Mas não regresses mais sem que eu te chame,
— Não sejas como a Saudade!

De súbito, arrebatas-me, através
De zonas espectrais, de ignotos climas;
E, quando desço à vida, já não sei
Onde era o meu lugar...
Poesia! nunca mais venhas assim,
— Não sejas como a Loucura!

Embora a dor me fira, de tal modo
Que só as tuas mãos saibam curar-me,
Ou ninguém, se não tu, possa entender
O meu contentamento,
Não venhas nunca mais sem que eu te chame,
— Não sejas como a Morte!

Carlos Queirós

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sempre

Publicada por bulgari



A nomear, sempre:
a árvore, o pássaro em voo,
o rochedo avermelhado por onde passa
o rio, verde, e o peixe
no fundo branco, quando desce a noite
sobre as florestas.
Sinais, cores, é um jogo,
receio que o resultado possa ser injusto.
E quem me ensina o que esqueci?
- O sono das pedras,
o sono dos pássaros em voo,
o sono das árvores,
a sua fala anda pelo escuro
-Houvesse aí um deus e incarnado
e que me pudesse chamar, eu andaria
por aí, eu esperaria
um pouco.

Johannes Bobrowski

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Intervalo de um poema

Publicada por bulgari



Depois de tombares a água, encontras a luz
na extremidade do mármore. A sombra
ergue-se na parede, progride até ao frio
que adere no mate da tarde. Sobre as grades,
passeias as mãos no jazente perfume que inundava
o teu antecessor. Morreu no fundo da estação,
na boca dos pássaros e no fim das gavetas,
esmagado. O vento invade a casa, o teu olhar
encalha nas árvores. Procuras a chave
do jardim por detrás dos retratos, na camisa,
junto ao coração. A porta, fecha-la com alarme,
e os cães da cercania acordam. Movem-se
automóveis carregados de urgência e mulheres
aos pares, cruzando enredos e passadeiras.
A noite está próxima. Sabe-lo pelo semblante
das pessoas. Dentro em breve não haverá
senão a circulação dos astros, iluminando o murmúrio
dos rios. Transpões a vedação, deixas-te cair
sob os fantasmas vegetais; ateias um cigarro
pra travar a fome e espalhas cinza e desespero
no intervalo de um poema.

Luís Filipe Nunes

domingo, 26 de setembro de 2010

Haverá...

Publicada por bulgari


haverá talvez um modo de amanhecer
que revele nos olhos o secreto ardor
com que se levanta o trigo enorme.
haverá talvez um lago que a noite não toque
e de dia em dia, como ontem, como amanhã,
cante a mulher que ali foi ver nascer o filho.
haverá talvez um suor que não o do sacrifício
e com o qual a pele cintile como uma borboleta
que vem descendo o céu até à flor dos teus lábios.
haverá talvez uma fala onde nos poderemos encontrar
sem que a tua mão esqueça a minha, sem que o sorriso
esconda o vazio, uma fala que só possa e saiba dizer nós.
haverá talvez um poema em que o soluço aperte as veias
como o rio aperta o mar, um poema em que eu e tu
dormimos sobre o luminoso esplendor do universo.

Vasco Gato

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Eu vou!

Publicada por bulgari


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Não posso

Publicada por bulgari


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Trailer de "Baarìa - A Porta do Vento"

Publicada por bulgari

Giuseppe Tornatore e Ennio Morricone. Grazie Mille....

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Não uses palavras

Publicada por bulgari




Estendi a mão por qualquer coisa inocente
uma pedra, um fio de erva, um milagre
preciso que me digas agora...uma coisa inocente
Não uses palavras
qualquer palavra que me digas há-de doer
pelo menos mil anos
não te prepares, não desejes os detalhes
preciso que docemente o vento
o longínquo e o próximo
espalhe o amor que não teme
Não uses palavras
se me segredas
aquilo que no fundo das nossas mentiras
se tornou uma verdade sublime.

José Tolentino Mendonça

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Antony and The Johnsons - Thank You For Your Love (Official Video)

Publicada por bulgari

sábado, 21 de agosto de 2010

Há noites

Publicada por bulgari


Há noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e há sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas.
Há noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas
e um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada à bainha de um cometa.
Há noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desencanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longínqua onda de seu canto.
Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo

Natália Correia

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Dos Afectos

Publicada por bulgari


Como fazer-te saber que há sempre tempo?

Que temos que buscá-lo e dá-lo…
Que ninguém estabelece normas, senão a vida…
Que a vida sem certas normas perde formas…
Que a forma não se perde com abrirmo-nos…
Que abrirmo-nos não é amar indiscriminadamente…
Que não é proibido amar…
Que também se pode odiar…
Que a agressão porque sim, fere muito…
Que as feridas fecham-se…
Que as portas não devem fechar-se…
Que a maior porta é o afecto…
Que os afectos definem-nos…
Que definir-se não é remar contra a corrente…
Que não quanto mais se carrega no traço mais se desenha…
Que negar palavras é abrir distâncias…
Que encontrar-se é lindo…
Que o sexo faz parte da lindeza da vida…
Que a vida parte do sexo…
Que o porquê das crianças tem o seu porquê…
Que querer saber de alguém não é só curiosidade…
Que saber tudo de todos é curiosidade malsã…
Que nunca é demais agradecer…
Que autodeterminação não é fazer as coisas sozinho…
Que ninguém quer estar só…
Que para não estar só há que dar…
Que para dar devemos antes receber…
Que para nos darem há também que saber pedir…
Que saber pedir não é oferecer-se…
Que oferecer-se, em definitivo, não é querer-se…
Que para nos quererem devemos mostrar quem somos…
Que para alguém ser é preciso dar-lhe ajuda…
Que ajudar é poder dar ânimo e apoiar…
Que adular não é apoiar…
Que adular é tão pernicioso como virar a cara…
Que as coisas cara a cara são honestas…
Que ninguém é honesto por não roubar…
Que quando não se tira prazer das coisas não se vive…
Que para sentir a vida temos de esquecer que existe a morte…
Que se pode estar morto em vida…
Que sentimos com o corpo e a mente…
Que com os ouvidos se escuta…
Que custa ser sensível e não se ferir…
Que ferir-se não é sangrar…
Que para não nos ferirmos levantamos muros…
Que melhor seria fazer pontes…
Que por elas se vai à outra margem e ninguém volta…
Que voltar não implica retroceder…
Que retroceder também pode ser avançar…
Que não é por muito avançar que se amanhece mais perto do sol…

Como fazer-te saber que ninguém estabelece normas, senão a vida?

Mário Benedetti

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Pequenas coisas

Publicada por bulgari


Falar do trigo e não dizer o joio.
Percorrer em voo raso os campos
sem pousar os pés no chão. Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro a alfazema.
Pequenas coisas, dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior:
dizer o indizível. Ou esta:
entrar sem bússola
na floresta e não perder
o rumo.
Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites.
Que é preciso, às vezes,
não acordar o silêncio.

Albano Martins
Escrito a Vermelho
Campo das Letras

domingo, 25 de julho de 2010

Yann Tiersen & Elizabeth Fraser - Mary

Publicada por bulgari

sábado, 17 de julho de 2010

Dolo ou delírio

Publicada por bulgari


Dolo ou delírio: escolhe um,
vive com ele. Sustenta-o,
usando de manhã ou martírio.
Escolhas o que escolheres,
foi para casos como o teu
que a solidão se fez.
Ao primeiro desencanto,
bebe dela a tragos longos
como quem bebe um licor
doloso, doloroso, delirante.

A. M. Pires Cabral

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Receita para fazer o azul

Publicada por bulgari



Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.

Nuno Júdice, in Meditação sobre ruínas

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Noites de Verão

Publicada por bulgari



Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão.
Mas no fundo isso não tem muita importância.
O que interessa mesmo não são as noites em si são os sonhos.
Sonhos que o homem sonha sempre.
Em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.

William Shakespeare

domingo, 4 de julho de 2010

Scissor Sisters - Fire With Fire

Publicada por bulgari

segunda-feira, 21 de junho de 2010

É um dia...

Publicada por bulgari



É março ou abril?
É um dia de sol
perto do mar, é um dia
em que todo o meu sangue
é orvalho e carícia.
De que cor te vestiste?
De madrugada ou limão?
Que nuvens olhas, ou colinas
altas, enquanto afastas o rosto
das palavras que escrevo
de pé, exigindo o teu amor?
É um dia de maio?
É um dia em que tropeço no ar
à procura do azul dos teus olhos,
em que a tua voz
dentro de mim pergunta, insiste:
Se te fué la melancolia,
amigo mío del alma?
É junho? É setembro? É um dia
em que estou carregado de ti
ou de frutos,
e tropeço na luz, como um cego,
a procurar-te.

Eugénio de Andrade



sábado, 19 de junho de 2010

No coração talvez

Publicada por bulgari


No coração, talvez, ou diga antes:
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta.
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Alicia Keys - Try Sleeping With a Broken Heart [Live Acoustic Version]

Publicada por bulgari



I've tried and i can´t...

terça-feira, 8 de junho de 2010

Se partires...

Publicada por bulgari

BBorodina


Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém – longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.
Se me abraçares, não partas.

Maria do Rosário Pedreira



segunda-feira, 7 de junho de 2010

Antony & The Metropole Orchestra - I fell in love with a dead boy

Publicada por bulgari

Breathe taking.........

sábado, 22 de maio de 2010

Jo Krasevich - Follow the sun

Publicada por bulgari

Eu, mesmo.

Publicada por bulgari



Eu, eu mesmo…
Eu, eu mesmo…
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar.

Eu…
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças…
Que crianças não sei…

Eu…
Imperfeito ? Incógnito ? Divino ?
Não sei…

Eu…
Tive um passado ? Sem dúvida…
Tenho um presente ? Sem dúvida…
Terei um futuro ? Sem dúvida…
A vida que pare de aqui a pouco…

Mas eu, eu…
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu…

Álvaro de Campos

Saudade

Publicada por bulgari

Maria João


Saudade de tudo!…
Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas
que eu podia viver e não vivi!…
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de almas órfas e irmãs, de minha gente dispersa,
que talvez ainda hoje espere por mim…
Saudade triste do passado, saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes vividos fora de mim!…
Pressa!…
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa da fusão de tudo,
sede da volta final da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo, um só, um!…
Como quem fecha numa gota o Oceano,
afogado no fundo de si mesmo…

Guimarães Rosa

terça-feira, 18 de maio de 2010

To Love Is To Bury-Natlie Merchant

Publicada por bulgari

Penso às vezes

Publicada por bulgari

Loredana Guidicelli


Penso às vezes que chegou a hora de estar calado.
Pôr de lado as palavras, as pobres palavras usadas
até ao fio,vexadas uma e outra vez até perderem
o mais leve sinal da sua intenção primitiva
de nomear as coisas, os seres, as paisagens, os rios
e as efémeras paixões dos homens
montados em seus corcéis que a vaidade aparelhou
antes de receber a curta, a irrebatível lição da tumba.
Sempre os mesmos, gastando as palavras
até não poder, sequer, orar com elas, nem exibir os desejos
na parca extensão dos sonhos, seus mendicantes sonhos,
mais propícios à piedade e ao olvido
que ao vão estertor da memória. As palavras, enfim, caindo
ao poço sem fundo onde vão buscá-las os enfatuados tribunos
ávidos de um poder feito de sombra e desventura.
Imerso no silêncio, mergulhado em suas águas tranquilas
de levada que detém o seu curso e se entrega ao imóvel
sossego das lianas, ao imperceptível palpitar das raízes;
no silêncio, como disse Rimbaud, há-de morar o poema,
o único possível já, lavrado nos abismos onde tudo o que é nomeado
perdeu há muito tempo a menor ocasião de subsistir,
de instaurar sua estéril mentira tecida na trama rala das palavras
que giram sem descanso no vazio onde se perdem
as néscias tarefas dos homens.
Penso às vezes que chegou a hora de estar calado,
mas o silêncio seria então um prémio desmedido,
uma graça inefável que eu não creio ter ainda alcançado.


Álvaro Mutis


...e eu nâo poderia mandar ninguém para um sitío que eu cá sei!!!

domingo, 16 de maio de 2010

Piensa el sentimento

Publicada por bulgari



Piensa el sentimento, siente el pensamiento;
que tus cantos tengan nidos en la tierra,
y que cuando en vuelo a los cielos
suban tras las nubes no se pierdan.
Peso necesitam, en las alas peso,

la columna de humo se disipa entera,
algo que no es musica es la poesia, la pensada sólo queda.
Lo pensado es, no lo dudes, lo sentido.

Sentimento puro?
Quien ello crea, de la fuente del sentir
nunca ha llegado a la viva y honda vena
No te cuides en exceso del ropaje,

de escultor y no de sastre es tu tarea,
no te olvides de que nunca más hermosa
que desnuda está la idea.
No el que un alma encarna en carne,

ten presente, no el que forma da a la idea es el poeta,
sino que el que alma encuentra tras la carne,
tras la forma encuentra idea.

Miguel de Unamuno

sexta-feira, 14 de maio de 2010

The Happiest lamb

Publicada por bulgari


Segunda-feira....

Publicada por bulgari


...és meu!!!

Mazgani-Songs of Distance

Lisa Hannigan - Splishy Splashy

Publicada por bulgari

Sim a ti

Publicada por bulgari



Sim, quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples da cozinha,
sim à liberdade do fogo que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
sem que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.



António Ramos Rosa

sábado, 8 de maio de 2010

Relator - Pete Yorn & Scarlett Johansson

Publicada por bulgari

You don't relate to me....

domingo, 2 de maio de 2010

Quando eu for pequeno

Publicada por bulgari

CdricChort
Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.
Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.
Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.
Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou____ pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.


José Jorge Letria

the sleeping masses

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If just a little kick could get back to yourself....yourself.

sábado, 1 de maio de 2010

Anda ver Maio nascer

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Den Martensen


Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amouRaiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul
Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar
Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutarNuma rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu

José Afonso

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Lisa Mitchell - Clean White Love

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O teu olhar nos meus olhos

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Sempre onde tu estás
Naquilo que faço
Viras-te agarras os braços
Toco-te onde te viras
O teu olhar nos meus olhos
Viro-me para tocar nos teus braços
Agarras o meu tocar em ti
Toco-te para te ter de ti
A única forma do teu olhar
Viro o teu rosto para mim
Sempre onde tu estás
Toco-te para te amar olho para os teus olhos.

Harold Pinter

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Está-se sempre

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Mastonardi


Está-se sempre, sempre, sempre a chegar. Ao segundo seguinte, ao desejo seguinte, ao olhar seguinte, ao medo seguinte, ao ruído seguinte, ao pensamento seguinte. Ao destino.

Dulce Maria Cardoso

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Rob Thomas - "Someday"

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Someday....

sábado, 24 de abril de 2010

36 Pétalas para Abril

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Esta é a madrugada que eu esperava


O dia inicial inteiro e limpo


Onde emergimos da noite e do silêncio


E livres habitamos a substância do tempo




Sophia de Mello Breyner Andresen


domingo, 18 de abril de 2010

The swell season

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The ballad of Jack and Rose

O reino

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No tempo aquil
cando os animales falaban,
decir libertá non era triste,
decir verdá era coma un río,
decir amor,
decir amigo,
era igual que nomear a primavera.
Ninguén sabía dos aldraxes.
Cando os animales falaban
os homes cantaban nos solpores
pombas de luz e xílgaros de soños.
Decir teu e meu non se entendía,
decir espada estaba prohibido,
decir prisión somente era unha verba
sin senso, un aire que mancaba
o corazón da xente.

¿Cando,cando se perdeu,
iste gran Reino?

Celso Emílio Ferreiro

sábado, 17 de abril de 2010

Gorillaz - Stylo (Full Version HD Music Video Clip) - Works in All Count...

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Talvez o primeiro

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Tenho medo de te ver
Necessidade de te ver
Esperança de te ver
Inquietação de te ver
Tenho ganas de te encontrar
Preocupação de te encontrar
Certeza de te encontrar
Pobres dúvidas de te encontrar
Tenho urgência de te ouvir
Alegria de te ouvir
Boa sorte de te ouvir
E temores de te ouvir
Ou seja
Resumindo

Estou fodido
E radiante

Talvez mais o primeiro
Que o segundo
E tambémVice versa

Mario Benedetti

domingo, 11 de abril de 2010

Jonebug- Robert Francis

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Should we think about the rest....

sábado, 10 de abril de 2010

Devia ir para lá

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Toda a terra, todo o planeta
é uma grande massa além...como uma corda, a estrada
soa e vibra. Aonde quer que possam ir,
só podem ir para lá, e ninguém vem para cá,
sempre para lá, sempre para lá.
Aqui fiquei eu só, assim fiquei.
E tenho medo, reconheço o medo.
Condeno-me, culpa sobre culpa.
Mas, de repente, uma mulher - o meu coração bate.
- Aonde vais? - pergunto curioso.
- Para cá - responde ela amorosamente.
É louca, - penso eu -, é absurdo!
Como pode vir para cá,
se devia ir para lá?

Bulat Okudjava
Poetas Russos

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Presos por um fio

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Kwsmith

O medo caminha de cabeça erguida neste planeta. O medo quer, pode e manda, próspero e eminente. O medo tem-nos a todos presos por um fio aqui em baixo. É verdade, meu caro. Filha, não te faças de desentendida... Um dia destes vou fazer frente ao medo.Vou fazer-lhe frente. Alguém tem de o fazer. Vou enfrenta-lo e dizer: Muito bem, cabrão, já chega. Já nos andas a dar ordens há tempo de mais. Eis alguém que não te quer aturar mais. Acabou-se. Fora!


Martin Amis


segunda-feira, 5 de abril de 2010

Não entendo

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Pilvi


Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma bênção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.


The national

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The return....

terça-feira, 30 de março de 2010

Defesa da alegria

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Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas
defender a alegria por princípio
defendê-la do pasmo e dos pesadelos
assim dos neutrais e dos neutrões
das infâmias doces
e dos graves diagnósticos
defender a alegria como bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingénuos e também dos canalhas
da retórica e das paragens cardíacas
das endemias e das academias
defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros
dos suicidas e homicidas
do descanso e do cansaço
e da obrigação de estar alegre
defender a alegria como uma certeza
defendê-la do óxido e da ronha
da famigerada patina do tempo
do relento e do oportunismo
ou dos proxenetas do riso
defender a alegria como um direito
defendê-la de deus e do inverno
das maiúsculas e da morte
dos apelidos e dos lamentos
do azar
e também da alegria

Mario Benedetti

....ainda que não sinta alegria nenhuma.

domingo, 28 de março de 2010

La fille danse

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Genius!!!

A primavera é o meu país

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Juha Saransali

Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia é já maior que ontem era

Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
é este o Deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada

A primavera é o meu país
Saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz
E dá flores até a minha mão

Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição.

Ruy Belo

Dogs

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