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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Do tempo

Publicada por bulgari

Edouard Boubat


Todo o tempo passado a trabalhar. Todo o tempo passado a falar com gente cheia de aspirações concretas. A esgravatar caminhos alternativos ao caminho que desde sempre soube e é o meu. Todo o tempo sóbrio, bêbedo, acordado, aqui. Fora da minha nuvem, Britânia imaginária. Todo o tempo perdido. Tanto. Roseiras por enxertar. Trutas à deriva. Bibliotecas de couro. Cavernames. Oboés doidos na charneca fria. Nunca os tocarei. O Tempo, indemne, não indemniza. Não se desdobra. Não se recupera. Resta-me ronronar e gemer. Ser gato. Exprimir o inefável com um orgulho estóico mas envelhecido. Tardio. O pêlo caindo. A pele demasiado larga para a carne. Peritonite infecciosa felina. O fim a instalar-se por toda a parte. O olhar triste. A espera. A inevitabilidade. Não conseguir saltar, e saltar. O sonho. A sublime humanidade dos bichos. A redenção. Privada. Como uma cicatriz que torna a pele única e intransmissível e, por isso mesmo, mais bonita.


Miguel Martins, Lérias. Averno 2011


Bem vindo

Publicada por bulgari



não sou senão a fábrica de outros sonhos mal sabidos
entre quem nunca desejou sonhar.
a mim coube-me abarcar as esperanças de quem as ignorou
as solidões de quem se proibiu de ver sozinho 
as multidões fracas que couberam em mim esperavam
o tempo inteiro
e o tempo inteiro não me chegou
nem a sombra emersa
nem a luz não-finita.
infinidade de sonhos
tantos como os que me couberam um dia na palma da mão
apanhei-os debruçado sobre a teia do espaço social
e plantei-os em mim. 
dos que ficaram no chão nem os restos sobraram. 

André Tomé, A secreta viagem

domingo, 23 de dezembro de 2012

Judy Garland - Have Yourself A Merry Little Christmas

Publicada por bulgari

Merry Christmas!

Publicada por bulgari


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Ludovico Einaudi - The Earth Prelude

Publicada por bulgari



" try to imagine a life without timekeeping. you probably can’t. you know the month, the year, the day of the week. there is a clock on your wall or the dashboard of your car. you have a schedule, a calendar, a time for dinner or a movie. yet all around you, timekeeping is ignored. birds are not late. a dog does not check its watch. deer do not fret over passing birthdays. man alone measures time. man alone chimes the hour. and, because of this, man alone suffers a paralyzing fear that no other creature endures. a fear of time running out.  

-mitch albom, the time keeper

sábado, 15 de dezembro de 2012

Um pequeno absurdo

Publicada por bulgari

Andrew Conroy





Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja,
que o absurdo, mesmo em curtas doses,
defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!
Se é verdade o aforismo faca afia faca

(não sabemos falar senão figuradamente
sinal de que somos pouco capazes de abstracção).
Se faca afia faca,
então que a faca do absurdo
venha afiar a faca da nossa embotada vontade,
venha instalar-se sobre a lâmina do inesperado
e o dia a dia será nosso e diferente.
Aflições? Teremos muitas não haja dúvida.
Mas tudo será melhor que este dia a dia.
Os povos felizes não têm história, diz outro aforismo.
Mas nós não queremos ser um povo feliz.
Para isso bastam os suíços, os suecos, que sei eu?
Bom proveito lhes faça!
Nós queremos a maleita do suíno,
a noiva que vê fugir o noivo,
a mulher que vê fugir o marido,
o órfão que é entregue à caridade pública,
o doente de hospital ainda mais miserável que o hospital
onde está a tremer, a um canto, e ainda ninguém lhe ligou
nenhuma. Nós queremos ser o aleijado nas ruas, a pedir esmola, a
a bardalhar-se frente aos nossos olhos. Queremos ser o pai
desempregado que não sabe que Natal Dai-nos, meu Deus…
há-de dar aos seus.
Garanti-nos, meu Deus, um pequeno absurdo cada dia.
Um pequeno absurdo às vezes chega para salvar.



Alexandre O’Neill

Chovem

Publicada por bulgari



Chovem protestos palavras
dramaturgos e profetas
a chuva dos manifestos
fecunda a horta das letras.
Chovem bátegas de sílabas
chovem doutrinas e tretas
chovem ismos algarismos
que numeram os poetas.
Chovem ciências ocultas
chovem ciências concretas
e nascem alfaces cultas
para poemas-dietas.
Chovem tiros de espingarda
chovem pragas e lamentos
e cresce a couve lombarda
nos quintais do sentimento.

Chove granizo política
dum céu carranca cinzento
constipa-se logo a crítica
que se mete para dentro.
Chovem as poetisas símias
da menina flor dos olhos
surgem canteiros de zínias
salpicados de repolhos.

Chovem as mulheres-a-dias
com os sonetos nas curvas
lavadeiras de poesia
em barrela de águas turvas.
Chove uma chuva de pedra
chovem astros em cardume
há uma erva que medra
com este estrume de lume.

Medra a erva do talento
medra a baga do azedume
não há erva que não medre
nas estufas do ciúme.
Chove uma chuva miúda
que é chuva de molha-tolos
sai o poema taluda
e saem rimas nos bolos.

Para o poeta que chova
por dentro, em razão inversa,
forçoso é ter guarda-chuva
contra a palavra perversa
que foi um chão que deu uva
e hoje só dá conversa.



José Carlos Ary dos Santos

sábado, 8 de dezembro de 2012

Matt Corby - Letters

Publicada por bulgari

Desejaste.....

Publicada por bulgari

Peter Gutierrez


desejaste um país de silêncio
de chuvas salgadas - sem caminhos nem sonhos

tiveste um país sombrio
onde a realidade devorou o delírio e
ficou desabitado - este país nocturno que geme

contra a solidão do corpo - perguntas-te

que espécie de lume cospem os cardos?
caberá o mar dentro da tua ausência? E o caule
negro dos analgésicos por mim acima... que cidade
de areia construída grão a grão aparecerá?
quantas lisboas estão enterradas? ou submersas?

o vento traz-te o aroma dos trópicos
dos tamarindos floridos das avenidas e dos fenos
primaveris das planícies - o vento
protege-te - leva-te no alado ácido
das geadas e das incertezas

dirás coisas alucinadas – as almas
uma álea de roseiras e
da bruma desprende-se
o adocicado olor da morte

Al Berto
in, O Último Coração do Sonho

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Levo tudo

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Matija Drosdek



Mas levo comigo tudo
o que recuso.
Sinto colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.

Nuno Júdice




segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Bon Iver - Love More

Publicada por bulgari

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A ausência....

Publicada por bulgari



Desperta a nudez espalha-se o silêncio
e a nostalgia acende-se como uma sombra clara.
Tudo o que vemos é longe entre margens de sono.

Arde e repousa a casa numa frescura imensa.
Inclinam-se os campos à memória mais antiga.


É a ausência que sabe em transparência líquida
a ternura mais funda das águas esquecidas.
Que júbilo de lâmpadas, de ervas e de rodas
brancas nos caminhos, que frescura tão limpa!

os volumes vazios da agonia. Toda a substância
se aligeira e desnuda na espessura.
Ver é quase nascer e ver ondear o vento.
Há uma presença branca de uma nuvem esquecida.
Alto, uma linha de silêncio se ilumina.

António Ramos Rosa

Incalcuable

Publicada por bulgari



"The effect of one good-hearted person is incalcuable."

Oscar Arias

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Angela GHEORGHIU - O mio babbino caro - G Schicchi - Puccini

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domingo, 11 de novembro de 2012

Never....

Publicada por bulgari




You can’t smooth out all my grumps and glooms - I do realize that. But oh, darling, I can’t bear to think of all you’re doing and seeing, and I not there, and I not there! Please, please, write down every scrap for me; you know how not a tassel on a table or a stain on a mat comes amiss. And how I miss you! How I miss the glow of your pearls and your warmth.

Virginia Woolf, from a letter to Vita Sackville-West dated 24 January 1933

Fala-me...

Publicada por bulgari

Ian and Erick Regnard "Waiting for Silence"



Fala-me de lucidez. – conta-me como é que a linha do horizonte se traçou no teu peito – em que lado da memória escondeste o mar.

E porque sorris assim no interior do meu desassossego?
Fala-me de lucidez.
Fala-me, para eu adormecer.


Al Berto, diários

À procura de um lugar

Publicada por bulgari



É o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia
a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar

e entram clandestinas no poema.
São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos
atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera

e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva
nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer
a nossa vez.


Rui Pires Cabral

sábado, 10 de novembro de 2012

"All That I Wanted" - David Fonseca (Official Video)

Publicada por bulgari

terça-feira, 30 de outubro de 2012

It may not always be so

Publicada por bulgari



It may not always be so; and i say that if your lips, which i have loved, should touch another's, and your dear strong fingers clutch his heart, as mine in time not far away; if on another's face your sweet hair lay in such a silence as i know, or such great writhing words as, uttering overmuch, stand helplessly before the spirit at bay; if this should be, i say if this should be- you of my heart, send me a little word; that i may go unto him, and take his hands, saying, Accept all happiness from me. Then shall i turn my face, and hear one bird sing terribly afar in the lost lands.

E.E.Cummings

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

As palavras

Publicada por bulgari




Recomecemos então, as mãos
palma com palma.
Diz, não digas, a palavra.
As palavras terão sentido ainda?
Haverá outro verão, outro mar
para as palavras?
Vão de vaga em vaga,
de vaga em vaga vão apagadas.
Seremos nós, tu e eu, as palavras?
Onde nos levam, neste crepúsculo,
assim palma a palma,
de mãos dadas?


Eugénio de Andrade

sábado, 27 de outubro de 2012

Belly Full by Dave Matthews Band

Publicada por bulgari





Oh my love

If I had my way then all your dreams
Would come true
Oh my love 
All your dreams and all the world
Just for you
Oh my love
If I had my way 

This for you
Spread yourself across my lips

And I spoon you inThe sweetest thing in all the world
Oh I want more
There is no place I'd rather be than here with you
Under the sun, the pouring rain, all the sky for you


Oh my love
If I had my way
This for you
Oh my love
Make your belly full

And all your dreams to come true

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Imagino

Publicada por bulgari

Magoac



imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.


vasco gato

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Brian Crain - Wind

Publicada por bulgari

domingo, 21 de outubro de 2012

Quando a noite toca os teus pulsos

Publicada por bulgari

Csaba Tököyi



quando a noite toca os teus pulsos
rebentam em ternura as açucenas
e o mais das flores se inclina
para o peito, o ventre, o calor
desta vida que brilha ao sul.

dá-me a tua mão, dizes,
quero ter contigo o relâmpago
que incendeia na terra os cereais
e no coração desperta as romãs.

procuro as árvores, pé após pé.
na sombra da tua palavra
busco o derradeiro acordar das estrelas
e demoro-me em silêncio
na interrogação dos planetas.

e quando a noite toca os teus pulsos
dá-se em mim uma vida maior
e das janelas apago os olhares
para ficar a sós contigo
no suspiro da terra que nos inventa.

Vasco Gato

sábado, 20 de outubro de 2012

Tudo é quase tudo

Publicada por bulgari




Tudo é tudo ou quase tudo
e nada é a mesma coisa.
Na realidade são tudo coisas indiferentes.
(Imagens...Imagens...Imagens...)

É este o caminho da Inocência? Exis-
te tudo e a aparência de tudo. (Imagens...)
Totalmente tolerante é 
a matéria metafórica da infância.

Tenho que tornar a fazer tudo,
a emoção é um fruto fútil, a pura luz
pensando dos dois lados da Literatura.
Aqui estão as palavras,metei o focinho nelas!

Manuel António Pina
in Todas As Palavras

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Dave Matthews Band - Sweet (Away From The World album)

Publicada por bulgari

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Libertação!

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Este blogue associa-se ao 13 de Outubro de 2012

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Quero falar-te

Publicada por bulgari

Jessica Alena



caí no silêncio há vários dias. quero falar-te das horas incandescentes que antecedem a noite e não sei como fazê-lo. às vezes penso que vou encontrar-te na rua mais improvável, que nos sentamos diante do rio e ficamos a trocar pedaços de coisas subitamente importantes: a tua solidão, por exemplo. mas depois, virando a esquina, todas as esquinas de todos os dias, esperam-me apenas as aves que ninguém sabe de onde partiram.


vasco gato

Às vezes

Publicada por bulgari



“Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.”

Fernando Pessoa

O teu silêncio

Publicada por bulgari




E contarei por fim, se alguém quiser saber, que o teu silêncio 
foi de tal densidade, de tal espessura, que não consegui 
escutar nenhuma das vozes que vieram depois de ti e, pior 
do que isso, me esqueci com indiferença das mais antigas, 
pelo que as minhas noites se tornaram uma tão longa 
e solitária travessia que ainda esta manhã acordei ao lado 
da tua sombra e respondi baixinho, mesmo sem ninguém 
me perguntar, que há coisas que uma mala nunca leva. 

Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

IW Exclusive: Being Elmo - Official Trailer (HD)

Publicada por bulgari

Será macio....

Publicada por bulgari



A partir de agora
nos dias todos que virão
falarei baixinho
de olhos fechados
e o que de dentro de mim sair
será macio e
efémero como um resto de espuma de mar
palavras suspiradas
entrecortadas
pelo ofegar de viver a sonhar.


Antony And The Johnsons - The Lake

Publicada por bulgari

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A caixa das cartas antigas

Publicada por bulgari




Ainda está por decidir a caixa
onde somamos
cartas de quem nos queria antes
do acordar aqui. Mas
como ordenar essas linhas
(mesmo que
para as ler de vez)
sem ter que rever cada voz?
Resistindo à distracção de
ter que aceder à memória?
Sendo fiel ao momento sem
ser desleal com o passado?
Usando apenas as mãos
sem usar dos sentimentos?
Revisitando os lugares
sem saudar as personagens?
Há chaves que deves fazer por
perder nas despedidas
se no agudo vão de escadas que sobe ao teu coração
a caixa é uma teia
(ardilosamente montada)
pronta a reter a pressa de
um voo mais desprevenido.


João Luís Barreto Guimarães

domingo, 30 de setembro de 2012

TAKE ME WITH YOU - Elizabeth FRASER

Publicada por bulgari





Amazing Liza...

Tu partias sempre....

Publicada por bulgari

Erwin Brevis



De que me serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz?


Porque era apenas atrás de ti

que eu corri o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.


Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Antony and the Johnsons - Cut the World

Publicada por bulgari

So much more than i ever was before

Publicada por bulgari


There are days
where all I wish
is that I
could crawl into
a cocoon
close my eyes tight
and after the wind
is done trying
its very best
to knock me from
my branch,
crawl back out
as something
so much
More
than I ever was
before.


-Tyler Knott Gregson-

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Discurso sobre a meditação real do quotidiano

Publicada por bulgari

Rose Boho-blue Dawson


XIII

e é preciso correr é preciso ligar é preciso sorrir
é preciso suor
é preciso ser livre é preciso ser fácil é preciso a roda
o fogo de artifício
é preciso o demónio ainda corpulento
é preciso a rosa sob o cavalinho
é preciso o revólver de um só tiro na boca
é preciso o amor de repente de graça
é preciso a relva de bichos ignotos
e o lago é preciso digam que é preciso
é preciso comprar movimentar comércio
é preciso ter feira nas vértebras todas
é preciso o fato é preciso a vida
da mulher cadáver até de manhã
é preciso um risco na boca do pobre
para averiguar de como é que eles entram
é preciso a máquina a quatro mil vóltios
é preciso a ponte rolante no espaço
é preciso o porco é preciso a valsa
o estrídulo o roxo o palavrão de costas
é preciso uma vista para ver sem perfume
e outra menos vista para olhar em silêncio
é preciso o logro a infância depressa
o peso de um homem é demais aqui
é preciso a faca é preciso o touro
é preciso o miúdo despenhado no túnel
é preciso forças para a hemoptise
é preciso a mosca um por cento doméstica
é preciso o braço coberto de espuma
a luz o grito o grande olho gelado


E é preciso gente para a debandada
é preciso o raio a cabeça o trovão
a rua a memória a panóplia das árvores
é preciso a chuva para correres ainda
é preciso ainda que caias de borco
na cama no choro no rogo na treva
é precisa a treva para ficar um verme
roendo cidades de trapo sem pernas


mário cesariny
manual de prestidigitação

The xx - VCR

Publicada por bulgari

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Cansaço

Publicada por bulgari

Nirrimi

Cansaço
de falar e ouvir sempre
idiomas estranhos.
Cansaço do peso das asas na terra.
Cansaço de se obrigar a ser forte
e congelar, deter, conter,
petrificar a luz, a nuvem, o ar.
E ter medo da música,
do livro de poemas,
do perfume da árvore,
da cor da tarde,
porque podem cair as armaduras,
romperem-se as couraças
e ficar simplesmente um ser humano,
sozinho, débil,
ferido de silêncios e palavras.



Maruja Vieira, Um país que sonha

domingo, 19 de agosto de 2012

De tudo não exijo mais nada

Publicada por bulgari




A pele é o meu único limite
atravessa-a
onde a luz é mais forte
não feches lá fora o mundo
nem a mim cá dentro


mostra-me
que o sol no céu
é o sonho em mim própria
a realidade ardente
quando me mordes
e me fazes sentir
que não há diferença
entre lado de fora e lado de dentro
entre dor e carícia
pedra e palavra


porosa às tuas investidas
sou aquela que
se abre em desejo
de existir no mundo
em todo o lado e ao mesmo tempo


dá-me o que tens
de tudo
não exijo mais nada.


pia tafdrup

terça-feira, 7 de agosto de 2012

As coisas semelhantes

Publicada por bulgari


 

Um dia tiveste a minha idade e tantas ou mais coisas

partidas do que eu. Um coração, o fecho de um colar de pérolas,

aqueles olhos vazios como o aquário verde no topo da estante,

demasiadas palavras armadas em metáforas. Coisas semelhantes

que mais tarde alguém tentou reparar. Tempo, amor e morte – sobretudo

os seus lugares vazios.

E uma pele capaz de os alojar.


Inês Fonseca Santos






quinta-feira, 19 de julho de 2012

Would be complete

Publicada por bulgari

Iryna Smolych




Once people get under my skin,
they never find the exit.
They romp around,
fill my insides with their song and dance,
make lots of noise, using my dumbness as their cover-up.
I’m full to bursting with wise men
and fools- they’ve utterly exhausted me!
So much so that my skin’s
quite worn through
by their heels, rubbing from inside!
Give me a chance to breathe!
It’s all impossible!
I’m stuffed to the gills
with those who’ve brought me so much joy
as well as those who’ve given most offence.
What has come over me?
What can I do with this great throng
stuck in my own small heart-
police are needed to keep order there!
I’ve gone a little cracked,
for there, in that secluded shade,
I’ve dropped none of the women
and none of them’s dropped me!
It’s awkward to revive dead friendships
however much you tire yourself with trying.
The only friends I’ve lost
were on the outside,
but of those inside I’ve lost nobody.
All the people in my life I’ve quarreled with,
or made friends with,
or only shaken hands with,
have merged in a new life under the old one’s skin-
a secret conflagration without flame.
The repossession of the unpossessable
is like a waterfall that rushes upward.
Those who have died
have been born again in me,
those who have not been born as yet
cry out.
My population is too large,
beyond the strength of just one man-
but then, a person would be incomplete
if he contained no others.



Yevgeny Yevtushenko

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Nunca foi tão tarde ser depois

Publicada por bulgari

Foto: Iv



Podes levar os dias que trouxeste
os pássaros soterraram Agosto

e sem lugar um homem cega pela janela
o mar que jura ter tocado com o sangue
podia ter sido o amor se não tivesse vindo
tão directamente da sede

um duplo rosto de enganos e os braços
que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas

um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois
daqui onde o grito surdo incendeia
a refutação da madrugada

donde o crânio esmaga o coração
um homem corta pela janela
a própria certeza de ter sido
não é tarde demais para uma manhã

que foi a enterrar em tantas noites
as escadas morreram de sede
a terra caiu em nunca
podes levar os dias que trouxeste


Pedro Sena-Lino

segunda-feira, 25 de junho de 2012

The Rapture - It Takes Time To Be A Man (Lyrics)

Publicada por bulgari

domingo, 24 de junho de 2012

Noites na Nora

Publicada por bulgari
sábado, 23 de junho de 2012

There is....

Publicada por bulgari




There is another sky
Ever serene and fair,
And there is another sunshine,

Though it be darkness there;
Never mind faded forests, Austin,
Never mind silent fields -
Here is a little forest,
Whose leaf is ever green;

Here is a brighter garden,
Where not a frost has been,
In its unfading flowers
I hear the bright bee hum:
Prithee, my brother,
Into my garden come!


Emily Dickinson



quarta-feira, 20 de junho de 2012

Às vezes

Publicada por bulgari

Kate Pulley



Às vezes escondo-me no corpo e ninguém me vê.
As pessoas falam comigo e não notam que eu não falo com elas.
Posso até dizer algumas palavras,
posso até exprimir-me num longo discurso,
mas a verdade é que não falo com elas.
Estou escondido algures no meio do meu corpo.
Enfio-me todo no esófago ou no centro da artéria aorta ou na veia jugular,
e, por vezes, quando estou mais tímido, chego mesmo a esconder-me nos músculos da planta do pé.
Apesar de não saber os nomes destes músculos escondo-me lá muitas vezes.
Aliás, é melhor fugirmos para sítios de que desconhecemos o nome: ficamos ainda melhor escondidos.
É a minha opinião.


A minha personalidade a refugiar-se inteira no dedo mínimo do pé esquerdo, vejam bem.
Por vezes acontece-me.
O meu EU alojado no dedo mínimo do pé esquerdo.
Os mais importantes pensamentos concentrados no dedo mínimo do pé esquerdo.
As minhas sensações mais íntimas escondidas no dedo mínimo do pé esquerdo.



Gonçalo M. Tavares

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Sigur Rós - Fjögur píanó

Publicada por bulgari

Os timidos

Publicada por bulgari

Kate Pulley



A escrita dos escritores tímidos tem muito de semelhante com a arte de conversar aplicada aos tímidos sociais. A maior parte das vezes quer escrever, mas não consegue. Há sempre qualquer coisa que o impede, tal como a maior parte das vezes, junto das pessoas, quer falar, mas há sempre qualquer coisa que o impede. Essa qualquer coisa tem nome, é o medo inconsciente de falhar, de dizer mal, de se esmagar contra o olhar que nós julgamos sempre feroz e infinitamente mais inteligente do outro. O mesmo se aplica à escrita. O olhar do outro vive inconscientemente dentro do nosso olhar. E o outro abstracto é sempre um eu melhorado, um eu contra o qual nós nos sentimos incapazes de combater. Os tímidos vivem sob o pavor de falhar, colocam sobre as suas lindas cabecinhas as orelhas de burro da culpabilização: eu sou mau ainda antes de o ser e, por essa lógica, se o for ainda pior serei. Os tímidos são as pessoas mais prevenidas e poupadas de que há memória. Poupam os outros de si mesmos, poupam palavras, poupam gestos, estão sempre a poupar. E é triste. Porque os tímidos, ao contrário dos outros, consomem-se em pensamentos, têm uma teoria para tudo - este é também um mito que os tímidos alimentam para se sentirem um bocadinho melhor -, mas rezarão para a história como meros figurantes na fotografia, são os da mesa do canto, os que coram, os que desviam o olhar, os que não têm sentido de oportunidade na hora da palavra, os eternos não me lembro do nome. Calam-se, não escrevem, não concretizam. Mas todo o ser humano é um ser de palavras, é um ser que nasceu para dizer algo que mais ninguém poderá dizer. Por isso, de quando em vez, o tímido monta no curso do pensamento num pónei alado e abre as comportas das palavras com um facho que tudo ilumina. Conversa muito, até ao cansaço, brilham-lhe os olhos, escreve muito, até ao cansaço, brilham-lhe ainda mais os olhos, e curva-se sobre o teclado como raposa sobre cacho de uvas ou riacho fresco e um súbito sentimento de realização inunda-lhe as mãos, inunda-lhe a boca até naufragar de novo no silêncio, até se refugiar de novo no seu casaco invisível, na sua apatia de pato de borracha que a criança esquece no vórtice do banho. É uma merda ser tímida, meus queridos. Uma merda, vos digo.


Ana Salomé

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Sucre - "The Cliff Waltz"

Publicada por bulgari

Vestido

Publicada por bulgari

Daehanpino


dá-me os teus olhos


eles são lagos, crateras de atenção, e a tua boca na minha, torna
o meu vestido num fragmento de mim,
tecido-terra por onde circula a claridade


dá-me os teus olhos


esta é a hora temperada da excepcionalidade, de um não-pensar,
via da consolação e dom, momento em que nada se disse
e não importou


dá-me os teus olhos, só assim serei alguém de amor



Ana Marques Gastão

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O romantismo cívico da agressão

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Youth - Daughter

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terça-feira, 12 de junho de 2012

Saiam

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Que saia a última estrela
da avareza da noite
e a esperança venha arder
venha arder em nosso peito


E saiam também os rios 
da paciência da terra 
É no mar que a aventura 
tem as margens que merece 


E saiam todos os sóis 
que apodreceram no céu 
dos que não quiseram ver 
- mas que saiam de joelhos 


E das mãos que saiam gestos 
de pura transformação 
Entre o real e o sonho 
seremos nós a vertigem 


Alexandre O'Neill 




sexta-feira, 8 de junho de 2012

Yann Tiersen (Sung by Stuart A. Staples) - A Secret Place

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terça-feira, 5 de junho de 2012

Não há chão

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Aceitar o dia. O que vier.
Atravessar mais ruas do que casas,
mais gente do que ruas. Atravessar
a pele até ao outro lado. Enquanto
faço e desfaço o dia. O teu coração
dorme comigo. Agasalha-me as noites
e as manhãs são frias quando me levanto.
E pergunto sempre onde estás e porque
as ruas deixaram de ser rios. Às vezes
uma gota de água cai ao chão
como se fosse uma lágrima. Às vezes
não há chão que baste para a enxugar.


Rosa Alice Branco

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Murmuro

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Graça Loureiro





Murmuro o teu nome ao rés da relva

Murmuro-o
Em diagonal da terra ao céu azul
Radiante

Felicíssimo
Não entendo nada.

Alberto de Lacerda 

domingo, 3 de junho de 2012

Fink - Berlin Sunrise - Live

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Horizonte imediato

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Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave

surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão


*
Não encontrarás aqui a fluência
de algum ventre polido ou verso límpido
porque estas palavra conhecem as paredes
que não ouviram a angústia e a vertigem


mas têm o sal das lágrimas obscuras
para sempre ignoradas para sempre futuras
nem ouvirás o som das aves frias
mas sentirás o arrepio de sombras sobre as pedras


ouvirás talvez um suor de silêncio


António Ramos Rosa
in Antologia Poética

sábado, 2 de junho de 2012

Greg Laswell - Comes and Goes

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Decepção à regra

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Sentar-me e

ver os outros passar é o

meu exercício favorito. Entretém.

Não esgota.

É gratuito. Neste meu jogo-do-não

são os outros que passam

(é aos outros que reservo a tarefa

de passar). Lavo daí os pés.

Escrevo de dentro da vida.

Pode até parecer que assim não

chego a lugar algum mas também quem

é que quer ir

ao sítio dos outros?


João Luís Barreto Guimarães

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Será que?

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Andreia Rechena

A arte da melacolia

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e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto

quarta-feira, 30 de maio de 2012

The Cinematic Orchestra Arrival of the Birds & Transformation

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terça-feira, 29 de maio de 2012

Bate-me à porta

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Lisa Wiserman


Bate-me à porta, em mim, primeiro devagar.
Sempre devagar, desde o começo, mas ressoando depois,
ressoando violentamente pelos corredores
e paredes e pátios desta própria casa
que eu sou. Que eu serei até não sei quando.
É uma doce pancada à porta, alguma coisa
que desfaz e refaz um homem. Uma pancada
breve, breve —
e eu estremeço como um archote. Eu diria
que cantam, depois de baterem, que a noite
se move um pouco para a frente, para a eternidade.
Eu diria que sangra um ponto secreto
do meu corpo, e a noite estala imperceptivelmente
ou se queima como uma face. Escuta:
que a noite vagarosamente se queima
como a minha face.

Essa criança tem boca, há tantas finas raízes
que sobem do meu sangue. Um novo instrumento,
uma taça situou-se na terra, e há tantas
finas raízes que sobem do meu sangue. E uma candeia,
uma flor, uma pequena lira,
podem erguer-se de um rio de sangue, sobre o mundo —
um novo instrumento rodeado de campânulas
inclinadas, por ligeiras pedras húmidas,
pelos animais que movem no seu calmo halo de fogo
as grandes cabeças sonhadoras.

Essa criança dorme sobre os meus lagos de treva.
Pensei algumas palavras para oferecer-lhe. Esqueço-me
tantas vezes dos mistérios dessa porta.
Porque então é muito estreita com os seus espelhos
detrás, com o vestíbulo frio.
Mas é tão belo uma criança ainda enevoada,
uma criança que ascende como uma
grande música
desta rede de ossos, deste espinho do sexo,
da confusa pungência, escuta: da pungente
confusão
de um homem restrito com a sua vida tão lenta.

(...)


- Herberto Helder

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Patrick Watson - Man Like You

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domingo, 27 de maio de 2012

É um dia de Maio

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Lucem

É Março ou Abril?
É um dia de sol
perto do mar,
é um dia
em que todo o meu sangue
é orvalho e carícia.

De que cor te vestiste?
De madrugada ou limão?
Que nuvens olhas, ou colinas
altas,
enquanto afastas o rosto
das palavras que escrevo
de pé, exigindo
o teu amor?

É um dia de Maio?
É um dia em que tropeço
no ar
à procura do azul dos teus olhos,
em que a tua voz
dentro de mim pergunta,
insiste:
Se te fué la melancolia,
amigo mío del alma?

É Junho? É Setembro?
É um dia
em que estou carregado de ti
ou de frutos,
e tropeço na luz, como um cego,
a procurar-te.

Eugénio de Andrade




sexta-feira, 25 de maio de 2012

VIII Festival Internacional de Banda Desenhada

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sábado, 19 de maio de 2012

Emmy Curl - Turn Off The Light

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sexta-feira, 18 de maio de 2012

Um dia

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Rebecca Finch


Um dia li num livro:


viajar cura a melancolia.
Creio que, na altura, acreditei no que lia.
Estava doente, tinha quinze anos.
Não me lembro da doença que me levara à cama,
recordo apenas a impressão que me causara,
então, o que acabara de ler.
Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes
e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto,
persiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação.
A verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar.
Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos,
mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vaga noite...
Avancei sempre, sem destino certo.
Tudo começou a seguir àquela doença.
Era ainda noite fechada. Levantei-me e parti.
Fui em direcção ao mar. Segui a rebentação das ondas,
apanhei conchas, contornei falésias; afastei-me de casa o mais que pude.
Vi a manhã erguer-se, branca, e envolver uma ilha;
vi crepúsculos e noite sobre um rio, amei a existência.
Dormia onde calhava; no meio das dunas, enroscado no tojo,
como um animal; dormia num pinhal ou onde me dessem abrigo,
em celeiros, garagens abandonadas, uma cama...
e quando regressei, com a ânsia do eterno viajante dentro de mim.
Hoje sei que o viajante ideal é aquele que, no decorrer da vida,
se despojou das coisas materiais e das tarefas quotidianas.
Aprendeu a viver sem possuir nada, sem um modo de vida.
Caminha, assim, com a leveza, de quem abandonou tudo.
Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma,
no puro sopro da madrugada, se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que os outros viajantes,
ao passarem pelos mesmos lugares, vêem.
O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo é único,
não se confunde com nenhum outro.
Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos,
purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil;
e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra.
O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz,
os astros, as águas, os peixes e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas.
Aprendeu a nomear o mundo.
Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada;
sabe que o homem não foi feito para ficar quieto.
A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue,
mata-lhe a alma - estagna o pensamento.
Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água.
Vive ali, e canta - sabendo que a vida não terá sido um abismo,
se conseguir que o seu canto, ou estilhaços dele,
o una de novo ao Universo.



Al Berto

Há uma rua que começa

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Caro55


No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

Ruy Belo

quinta-feira, 17 de maio de 2012

BEACH HOUSE - "MYTH" (OFFICIAL TRACK)

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quarta-feira, 16 de maio de 2012

Há coisas assim

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Alice Lemarin



O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
São como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto -
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

O meu amor não se deixa dizer- é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.

Maria do Rosário Pedreira