É tudo tão pequeno esta manhã.
As aves acordaram surpreendidas,
a voarem nos meus olhos
curvas fatigadas
de Primavera morta…
As mãos caem-me secas
ao longo do corpo
em folhas recortadas
de árvore de solidão…
As raízes sugam-me nas veias
o sangue da terra
das manhãs de sussurro…
Sim. Hoje só eu existo…
Eu com este remorso de gota de água
que se recusa a cair no mar
─ para se sentir maior
longe da cólera comum da Tempestade.
josé gomes ferreira
Quem me espera na hora sem lugar,
está mudo e branco sobre a luz velada;
dos braços longos escorre-lhe o calor
de séculos de amor e voz cerrada.
Morreu de sonho à proa do navio,
que tem, pintadas, flores, de cores bravias,
e um doce aroma de almas navegantes...
Morreu de sonho! E os pássaros do rio
voaram-lhe a agonia, triunfantes.
Então os braços removeram anos,
desencontros, renúncias, esquecimento,
e partiram, floridos e secretos,
ao meu encontro frágil no momento.
Escutei-lhe a pele na minha pele dorida.
Senti-lhe o jeito (o jeito de manhã
do princípio do Mundo).
Esses braços cantavam como cisnes
e era eu quem morria!
Natércia Freire
A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.
José Jorge Letria
Talvez sejas
a breve recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora
Manuel António Pina
Gerard Castello Lopes
Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.
Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que fôr o meu
José Carlos Ary dos Santos
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